Ensino de Astronomia e Ferramentas Web 2.0 - Ciência, Cultura Digital e Divulgação Científica no Ensino Fundamental

O ensino da Astronomia nas diversas disciplinas do currículo do Ensino Fundamental e Médio é objeto de muitas pesquisas área de Ensino de Ciências. Muitos trabalhos mostram que existem diversos problemas, dentre os quais se destacam a melhoria da qualidade dos docentes que atuam em disciplinas que envolvem o conteúdos de Astronomia. Um dos principais problemas é a falta de ao material bibliográfico acessível aos docentes, que muitas vezes contém graves erros conceituais, inclusive em livros didáticos (CANALLE, 1997 e TREVISAN,1997).

 

Por outro lado, a Astronomia é um dos ramos da ciência contemporânea que ganha significativo destaque em editorias de ciência de jornais diários, em revistas de informação para o público em geral e em portais noticiosos na internet. Entretanto, um exame mais atento no teor dessas notícias mostra que, muitas vezes, técnicas de edição jornalística acabam distorcendo a gênese dos fatos, associando-os mais ao espetáculo do que à precisão e à complexidade da ciência . Como há uma carência de materiais voltados ao professor, os meios de comunicação acabam sendo uma das principais fontes de informação disponível.

 

Numa perspectiva educacional, é importante que, neste momento, os avanços no conhecimento científico e tecnológico sejam compartilhados com a sociedade, seja em projetos voltados para a educação sistemática da escola, seja em programas destinados à população como um todo. Em particular, ao longo do ano de 2009 por ser declarado pelo UNESCO como o Ano Internacional da Astronomia muitas iniciativas estão sendo realizadas por diversos grupos, tanto de astrônomos e pesquisadores como também grupos amadores de Astronomia. Iniciativas como o projeto “Telescópios nas Escolas”, que reúne universidades de diversos Estados, o evento “100 Horas da Astronomia”, promovido em diversos países – o Brasil entre eles – por membros da União Internacional de Astronomia em abril de 2009, e o incentivo dado pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que lançou em 2008 um edital específico para programas de divulgação da Astronomia.

 

Entretanto, se houver preocupação em saber se a pessoas estão mesmo aprendendo os conceitos que vêm sendo divulgados pelos cientistas, inevitavelmente, eles irão se deparar com questões tipicamente pedagógicas: qual é a relevância desse conhecimento para o público? Que tipo de conteúdo selecionar? Como organizar essa informação? Que recursos de aprendizagem usar? Como avaliar o resultado da ação educativa? Se a meta for aproveitar os recursos tecnológicos digitais e adequar o ensino da Astronomia aos paradigmas educativos contemporâneos, outras questões podem ser adicionadas.

 

Uma delas se refere aos modos como os professores ensinam e como os alunos aprendem, e que nem sempre estão em sintonia. Essa é uma discussão de longa data, que começa em Dewey (1959), ganha uma versão brasileira em Freire (2005) e continua sendo debatida no contexto do uso de tecnologias digitais no campo da educação (MARTIN-BARBERO, 2004, BUCKINGHAM, 2003, COPE E KALANTZIS, 2000).

 

Os chamados escolanovistas (que têm no educador americano John Dewey uma referência importante), no final dos anos 50, já alertavam para a “intimidade” existente entre a educação e as práticas comunicativas. Toda educação é uma ação comunicacional, defendia Dewey, enfatizando o sentido de “tornar comum, partilhar” que cabe à palavra comunicação. Trabalhando com comunidades rurais e ensinando adultos a ler e escrever, Paulo Freire vivenciou e depois registrou a importância da ação dialógica – a comunicação de duas vias – para que a educação se torne um processo autêntico, isto é, seja uma experiência relevante e que, de fato, modifique a mente do aprendiz. Caso não haja o diálogo entre professor e estudante, ambos mediados pelos objetos da realidade a serem conhecidos, o que se têm é uma transmissão, opressiva e artificial, que pode trazer muito pouco para o aprendiz.

 

No contexto contemporâneo, em que as mídias ocuparam um espaço central nas práticas sociais, seja no trabalho, no lazer ou na educação, cientistas sociais vêem uma mudança importante nas relações pessoais e profissionais: no lugar das hierarquias e instruções claras baseadas no comando, típicas da chamada economia capitalista fordista, o que se vê é o surgimento de equipes de trabalho, com hierarquia plana e comunicação informal através de e-mail e comunicadores instantâneos, tipo MSN e Skype. A especialização em uma dada tarefa começa a ser substituída pela necessidade das multi-habilidades. A decodificação das informações relevantes requer mais do que saber ler o texto impresso, e quem não domina as diversas linguagens, tem muito mais dificuldade para se integrar ao mundo do trabalho. Habilidades de comunicação e uso competente de tecnologias, portanto, tornam-se condições básicas para o exercício das mais diversas funções e papéis sociais.

 

A educação para a ciência não é alheia a este contexto e, na medida em que professores de matemática, português, física, química, história, geografia e artes souberem articular seus conteúdos próprios de ensino com o contexto maior das habilidades múltiplas para ler e manipular elementos da realidade, numa abordagem multidisciplinar, tanto mais autêntica será a experiência da educação, porque mais próxima vai estar da experiência concreta da vida material e simbólica.

 

É neste contexto que elaboramos o curso “Uso de ferramentas web 2.0 no ensino de Ciências”. O programa está organizado em 10 tópicos semanais, com duração de 4 horas cada. O objetivo é explorar o uso de diversas ferramentas para organizar e compartilhar o conhecimento produzido por professores e alunos do Ensino Fundamental sobre astronomia.

 

A seleção de temas foi feita a partir das recomendações dos Parâmetros Curriculares Nacionais para 5ª a 8ª série e a abordagem pedagógica se baseia no referencial teórico da chamada media literacy inglesa. Tal abordagem foi escolhida porque a Inglaterra, historicamente, tem sido pioneira no uso crítico e criativo das mídias analógicas e digitais no trabalho educativo em sala de aula, desde os anos 30. A partir de 2003, o governo britânico aprovou uma nova lei geral das comunicações que atribuiu ao Estado a responsabilidade para educar seus cidadãos para o uso autônomo e criativo dos meios de comunicação, não só no momento da recepção, mas também na produção de conteúdos, tarefa que se tornou mais fácil e viável principalmente após o surgimento das chamadas ferramentas web 2.0, tais como os blogs, portifólios, e Youtube.

 

Assim, o objetivo deste curso é desenvolver metodologias para tratar de conteúdos clássicos da cultura escolar sob uma nova abordagem, centrada na produção de conteúdo, usando múltiplas linguagens. Ao concluir o curso, esperamos que os alunos tenham  desenvoltura para usar texto, imagem, som  e hipertexto na elaboração de atividades sobre tópicos de astronomia que valorizem tanto a qualidade da organização dos conteúdos, quanto o potencial interativo e multimidiático que a internet oferece. Na nossa abordagem, compreender é tão importante quanto saber comunicar aos outros aquilo que foi aprendido. Junto com o estudo e o experimento, estamos incluindo a comunicação científica no rol de atividades importantes para o ensino de ciências. Se a ciência se faz com produção e comunicação, o ensino nessa área será mais legítimo na medida em que os alunos também souberem experimentar e comunicar com clareza e competência o resultado dos seus experimentos, usando diversos modos de linguagem.

 

Programa do curso

 

SEMANA 1 - Atividade introdutória: Astronomia, Cultura Digital e Divulgação Científica... o que uma coisa tem a ver com a outra?

 

SEMANA 2 - Produção de blogs e mini blogs de comunicação da ciência

 

SEMANA 3 - Astronomia nos Parâmetros Curriculares Nacionais : tópicos e habilidades

 

SEMANA 4 - Como abordar tópicos de Astronomia no Ensino Fundamental

 

SEMANA 5 - Como abordar tópicos de Astronomia no Ensino Fundamental

 

SEMANA  6 – O conceito de web 2.0 e o compartilhamento de conteúdos digitais sobre ciência

 

SEMANA 7  - Leitura crítica de notícias sobre Astronomia

 

SEMANA 8 – Leitura crítica de notícias sobre Astronomia

 

SEMANA 9 - Jogando um RPG temático de Astronomia (preparação)

 

SEMANA 10 - Jogando um RPG temático de Astronomia